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sábado, 21 de julho de 2012

A bruxa que cosia livros e comia lagartixa com queijo de cabras


Dia desses resolvi fazer algo diferente e que resultasse em algo de útil (pra mim mesma), no caso! Acreditem ou não eu fui e fiz aquilo de útil que eu (esperava) desse resultado. .. E num é que deu!? Ao final da execução lá estava minha obra: meio torta meio, caolha e um tanto inútil - concluí!

De nada tinha adiantado meu esforço para tanto, mas nessa empreitada conheci uma mulher estranhíssima. Sua figura parecia ter saído de um museu de cera. Tinha olhos grandes, pele amarelada, e cabelo do tipo palha de aço que exibia o tom cansado do grisalho.  Na ocasião, usava uma boina xadrez , calça jeans e um camisetão. E sua habilidade em costurar páginas me assombrava. Suas mãos iam juntando folhas sobrepostas , enquanto agulha e linha faziam seu bailado entre seus dedos.

Descobri mais tarde que ela morava num sótão com o fogo crepitando dentro de um pequeno caldeirão ao lado da mesa cheia de papéis abstratos misturados a ervas e incensos certamente comprados em Sallen.

Na parede, em frente à mesa, mais ou menos uns 2 metros de distância jazia uma pequena vidraça, cuja luz incidia diretamente sobre suas páginas costuradas. O restante do ambiente era sombrio como os olhos dela.

Tinha um mago como companheiro de cama e mesa. O homem aparentava  seus cinqüenta e lá vai pedrada . Cabelos desalinhados e ligeiramente brancos, misturados a uma nuance já grisalha. Barriga proeminente e mãos de artesão. Usava óculos e lia jornais o tempo todo. Ao ouvir certos comentários do mesmo, pude perceber que era culto o suficiente para analisar Platão e Neruda.

Era realmente um casal folclórico e inusitado. Ela, a bruxa de cera ,dizia que tinha lá seus 30 anos (bem vividos) segundo ela e sua vasta oratória impressa dentro das  estações do ano.

Ela gostava de folhas mortas, desprovidas de clorofila e fazia do vento seu confidente nas horas mudas da madrugada.



Descobri certa vez que odiava a luz ...  Assustador? Para uma bruxa, não, quase nada. Obviamente não gostava do sol preferindo a chuva dançando na vidraça e o nublar do céu.

No sótão, ela tinha uma roca de fiar livros, estrelas de cinco pontas e toda sorte de quinquilharias profanas vindas do submundo da magia negra.  O universo era sua crença e os elementos, seus deuses.

Festejava luas e suas fases e possivelmente dentro de um circulo em companhia de seu inseparável pentagrama.

Falei com ela (pessoalmente) duas vezes e foi o bastante pra eu sair correndo sem olhar pra trás. Devagar, descobrindo seu horror a crenças e dogmas. Não me admiraria se fosse iconoclasta.

No demais, acenei para um até nunca mais e corri pro mundo real.

by Juliana W.


*Nota da Lu: Juliana Pallmer é atriz e contadora de histórias e o que mais me encantou nela foi a semelhança  entre o meu e o seu estilo literário.
Ela voa e sobre(voa) no pandemonio que é a literatura surreal.
Eu a conheci em um sarau, numa noite de lua crescente e céu estrelado. Ela recitou alguns poemas  e leu esse texto sinistro, deixando o povo boquiaberto.
Eu, ali na platéia, ouvia e dizia com meus botões: "preciso conhecer esta mulher". E ao fim do sarau fui apresentar-me. .. Identificação total.
Trocamos alguns e-mails e ela disse que de vez em quando eu poderia postar algum texto ou poema dela.  Portanto, cumpri a missão!
Obrigada Juli  e esse texto veio bem a calhar aqui no Coluna, onde a língua não tem papas.

11 comentários:

  1. Obrigada Juli, em permitir postar seu texto no Coluna!

    bacios longínquos, atravessando mares...

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  2. Oi LU,

    Bem macabro o texto (rsrsrsrs).
    Ela é uma excelente contadora de histórias, pois pude ver os cenários e os personagens, haja vista a excelência das descrições.


    Lindo domingo para você, amiga, e um abraço especialmente afetuoso
    pelo dia da amizade.

    Beijão.

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    1. Verinha do meu cuore, vc viu que sinistro? MEDOOO!!

      E segundo ela me contou depois, o fato foi veríssimo, poe ela conheceu a tal mulher (bem de perto) afff.

      bacios cara mia
      Retribuindo abraços pelo dia do amigo com beijos!!
      Lu

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  3. Lu,

    pode parar tudo, minha amiga,tudinho mesmo!!...

    Menina, eu podia jurar que esse texto era seu, que coisa!!!
    Impressionante como seus estilos se misturam, identificam-se...

    Nossa, fiquei pasma agora, amiga, duplamente pasma. Pela beleza do texto, das linhas e das entrelinhas e tb devido à incrível semelhança contigo, não somente no estilo, mas no universo vocabular também!!!
    Foi ótimo vc não nos revelar de início, que não era cria tua...rs

    E parabéns à sua amiga Juliana pelo encanto da história, que na verdade não me deu medo, mas uma sensação de ter entrado em um lindo conto (de fadas e bruxas, sem fadas...) da literatura infantil!

    SIMPLESMENTE A-MEI.

    Beij\0/

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    1. MIgaaaaa, vc viu, que medo?! kkkkkk afff...
      É, essa senhora deve ser eu em outra galáxia, porque naum é possível escrever assim, feito magia que nem que eu, afff!

      Lagartixa com queijo de cabra? Coisa de bruxa mesmo, total!
      bacios amada minha!

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  4. Isso me fez lembrar uma passagem de minha vida, aos 6 anos fiquei alguns minutos na frente da casa de uma bruxa (de cera, num parque na Alemanha). Quando a porta abriu e ela finalmente ia sair, tinha que ter uma criança CHATA querendo fazer xixi na hora errada!!!!! Não me deixaram voltar e passei todos esses anos imaginando. Como pode ver, nunca tive medo das bruxas, somente as que vivem perto da gente, fazendo mal sem magia, somente com a língua ferina!

    Beijos

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    1. É bem verdade Sissyn, você disse tudo: Bruxas reais são bem piores que as dos contos de fadas. E elas sempre nos rodeiam com inveja, ciúme e toda sorte de coisa ruim.

      Eu e minha amiga ficamos gratas pela leitura.

      beijo

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  5. Lu docinho..eu prefiro as bruxas das historias que conheço...com certeza tem muitas hoje por ai que são muito más..vamos deixa-las bem longinho de nos..muitos beijos amiga do coraçao...titi

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  6. Parece um texto com endereço, mas elegante!

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  7. Também pensei que o conto era seu. Não o considerei sinistro (rss). Podemos até trazê-lo para nossa realidade e nossos encontros com algumas pessoas, que esperamos não repetir. Bjs.

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